15 anos de carreira …

n_atletico_de_madrid_humor-652394Comecei a trabalhar com programação como estagiário nos últimos meses do longínquo ano de 1999, naquele estágio obrigatório do curso de Computação. Entretanto, prefiro começar a contagem no início do ano 2000 – ano mais bonito né? – quando me formei e fui efetivado, deixando pra trás minha curta vida de estagiário (pelo menos, oficialmente).

Nesses 15 anos, muita coisa mudou na área de software, no mundo e na minha vida. Abaixo, descrevo um pouco como foi esse período, o que eu fiz, minha volta por cima e o que vem por aí. Não deu para entrar em tantos detalhes assim caso contrário esse post teria ficado gigantesco, mas acredito ter feito um bom resumo.

CLARION FOR WINDOWS

No início, comecei desenvolvendo e dando manutenção em aplicações desktop, utilizando a obscura linguagem e ferramenta RAD chamada Clarion. Ela existe até hoje e continua obscura. Raríssimas pessoas já ouviram falar. Consiste basicamente em uma espécie de Delphi porém com maiores capacidades para geração automática de código.

O maior problema era quando tínhamos que meter a mão na massa e fazer algo fora do tradicional CRUD gerado automaticamente. Havia pouca documentação sobre o Clarion e não havia uma comunidade forte de onde buscar conhecimento, ou seja, muita coisa era descoberta na raça, na tentativa-e-erro.

Continuei trabalhando bastante com Clarion por uns 4 ou 5 anos. Depois disso, o trabalho foi resumindo-se a pequenas manutenções até parar definitivamente de utilizá-lo por volta de 2009.

ASP CLÁSSICO E OS SITES DINÂMICOS

Também no início da carreira, comecei a programar para web, utilizando a tecnologia ASP (Active Server Pages), hoje chamada por alguns de “ASP clássico”.

O início dos anos 2000 foi marcado pelos “sites dinâmicos”, criados geralmente com ASP (que utilizava VBScript/Javascript), PHP e ColdFusion. Sites que eram totalmente estáticos (ou meras “homepages”) passaram a ganhar algum conteúdo dinâmico e interação com o usuário, com a inclusão de fóruns, notícias, murais, enquetes, entre outros.

Nessa fase “ASP”, publiquei vários sites com consultas SQL utilizando concatenação de strings sem saber que isso era errado (da-lhe SQL Injection!). Anos mais tarde, num desses copia-e-cola de sites, um deles foi invadido graças ao SQL Injection.  Por sorte, era apenas conteúdo de notícias de um site. Nada que um backup do banco não resolvesse sem maiores prejuízos.

Tive a oportunidade de trabalhar com uns 4 ou 5 sites/portais para o público brasileiro residente no Japão – serviços trazidos por um contato do meu ex-chefe, que se tornou sócio dele por um tempo. Nesses trabalhos, tive minha primeira experiência com bancos de dados Oracle e pude trabalhar de forma mais decente com ASP, organizando melhor o código e evitando SQL Injection.

MUITO APRENDIZADO

Estes 3 anos iniciais de carreira foram um período de extremo aprendizado e diversidade, onde pude trabalhar em dezenas de softwares das mais diversas áreas e visitar vários clientes.

Também neste período, tive a experiência de palestrar pela primeira vez – para falar sobre o Clarion – e pela segunda vez – em uma exposição da raça bovina Brangus, em Presidente Prudente, para falar sobre um software que tínhamos feito para uma associação da área (pelo menos, eu acho que era sobre isso!).

MINHA VIDA DE EMPRESÁRIO

Quase no final de 2002, fundei a NSW em sociedade com meu ex-chefe e mais um colega de trabalho. A ideia era focar mais na web que, afinal, era o “futuro”.

Naquela época, eu imaginava que faria (muito) dinheiro até os 30 anos de idade. Santa ingenuidade! A verdade é que abrimos a empresa sem dinheiro algum no bolso e sem um plano muito bem claro de como esse dinheiro viria. Além disso, tinha que conciliar a empresa com as obrigações de um pai de família muito novo – aos 21 anos, eu já era casado e com uma bebezinha; com apenas 1 ano de empresa, estava nascendo meu segundo filho.

Foram 7 anos de altos e baixos, mais baixos do que altos. Logo de início, tivemos uma mudança na sociedade, que, de certa forma, nos ajudou financeiramente – pelo menos a não piorar – nos anos iniciais. A receita era pequena. Não tínhamos um comercial forte e não fechávamos nenhum contrato de valor considerável. Juntando-se a isso, estava toda a parte chata administrativa da empresa que eu fazia (contador, banco, cobrança, comercial, …..).

Tive, por um período, que fazer bico a noite na outra empresa deste sócio novo para poder ganhar uma graninha a mais. Também contava – e muito – com a ajuda financeira da minha mãe. Se não fosse por ela, eu estaria pagando dívidas provavelmente até hoje.

Com o passar dos anos, a situação e minha motivação foram piorando. Eu – que sempre fui um cara estudioso – relaxei, não aprendia nada de novo e não corria atrás, muito por conta da pressão e do desgaste em que eu me encontrava.

Nos últimos anos de empresa, ouvia minha mãe me dizer inúmeras vezes “desiste dessa empresa, isso não vai te levar a lugar nenhum…”. Viu? Escutem a mãe de vocês de vez em quando!

(Nessa fase, em 2006, tive meu contato com .Net, estudando ASP.NET com VB.NET e logo depois indo para o C# e desenvolvendo aplicações desktop com WindowsForms.)

RENASCENÇA

Dois anos antes de deixar a NSW, eu tive um despertar. Sinceramente, não me lembro como, o que me motivou. Voltei a estudar (e muito). Devorei em poucos meses uma bíblia de .Net de quase 900 páginas (training-kit para uma certificação de .Net). Em seguida, vieram mais dois: de WebForms e de WindowsForms.

Comecei a participar dos fóruns do MSDN, no começo somente como leitor, e também a acompanhar blog técnicos, como o finado .Net Unplugged, do lambda Giovanni Bassi.

No último ano de empresa (2009), tirei duas certificações Microsoft porque, naquela época, eu achava que certificação servia pra alguma coisa…. Também no último ano, escrevi meus dois primeiros artigos para um blog, o finado blog da comunidade Pantanet, aqui de Campo Grande.

FIM DA VIDA DE EMPRESÁRIO

Com todas as dificuldades acima e minha vontade crescente de ser um desenvolvedor melhor, depois de muito protelar, tomei a decisão de deixar a sociedade. Não via perspectiva de melhoras e tinha em mente que para evoluir ainda mais rápido como programador, seria ideal trabalhar em uma equipe junto com outros programadores.

Deixei a empresa em agosto de 2009, na cara e coragem, sem sequer ter enviado meu currículo para outras empresas. Tinha um serviço a concluir e um valor para receber – menos de 2.000,00 –  e depois disso estaria sem nenhuma fonte de renda.

Enviei meu currículo para algumas empresas locais e depois de 1 mês estava de volta ao mercado.

ASCENSÃO E DÍGITHOBRASIL

Em 09/09/2009 (data cabalística, não?), comecei a trabalhar na DígithoBrasil, onde me encontro até hoje.

De lá pra cá, meus estudos aumentaram exponencialmente. Aqui em Campo Grande, desde o início da carreira, nunca tive a sorte de ter um mentor, alguém que me ensinasse como fazer software de forma profissional, então fui atrás das melhores referências que podia encontrar (nacionais e internacionais). Estive nos maiores eventos do país e fiz dezenas de treinamentos.

Enfiei na cabeça a ideia que iria ler os livros mais clássicos e recomendados da área. Você costuma a ir a essas conferências da área? Sabe aqueles livros que costumam recomendar ao final das palestras? Tenho orgulho em dizer que li dezenas deles porque eu queria aprender com os melhores. E realmente aprendi muita coisa. Coloquei em prática muita coisa e aprendi nos últimos 6 anos muito mais do que havia aprendido nos 9 primeiros.

Em outubro/2010, comecei este blog técnico, que considero um projeto bem-sucedido.

Desse ano pra cá, entrei de cabeça na tal da “Agilidade”, com o Scrum, XP, Kanban, práticas como TDD, DDD, integração contínua, entre outras. Contei um pouco dessa história da mudança do modelo tradicional para a “cultura ágil” em uma palestra no Javaneiros de 2013. (Um pouco antes, em 2011, havia retornado às palestras – uma década depois – na edição campo-grandense do evento “Maré de Agilidade”, falando sobre TDD na plataforma .Net.)

Em 2012 – graças ao blog – tive a oportunidade de escrever um artigo sobre Domain-Driven Design para a revista Engenharia de Software.

Em 2014, pude assistir ao vivo uma palestra do Ralph Johnson, um dos escritores do clássico livro “Design Patters – Elements of Reusable Object-Oriented Software”. Em 2015, foi a vez de ver ao vivo uma palestra do Martin Fowler, um dos signatários do Manifesto Ágil e escritor de vários livros clássicos.

Em outubro/2015, ministrei meu primeiro workshop “TDD e testes de unidade de forma profissional”, onde procuro passar minha experiência de 5 anos no assunto.

FINALIZANDO…

Ufa! Se você chegou até aqui, muito obrigado!

Isso foi um resumo desses últimos 15 anos trabalhando com desenvolvimento de software, área pela qual sou apaixonado e que me permite estar sempre aprendendo e fazendo coisas diferentes (e eu detesto mesmice).

Se este post deixa alguma mensagem, embora clichê, é a de que você nunca deve desistir. Mesmo estando numa situação ruim hoje, defina suas metas e as persiga. Não culpe ninguém pelo seu fracasso, VOCÊ está no controle e pode chegar onde quiser.

Abraços, em especial a todos que fizeram parte dessa história!

ps.: Quanto ao futuro? Bom, o futuro fica para um próximo post………ou não!

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9 comentários em “15 anos de carreira …

  1. Muito legal ler esse resumo, Robson. A verdade é que pra meros mortais como eu, passíveis de errar e fracassar com certa facilidade, é dificil imaginar que alguém como você algum dia fracassou profissionalmente. Por isso essa biografia é bastante motivadora pelo menos p/ mim.

    Me chamou atenção também essa parte: “Aqui em Campo Grande, desde o início da carreira, nunca tive a sorte de ter um mentor, alguém que me ensinasse como fazer software de forma profissional…”. Já eu tenho essa sorte: sou rodeado de oportunidades pra melhorar (Casa do Código, Alura, Café com Bytes, amigos que trabalham na DigithoBrasil, seus Workshops, livros e treinamentos, etc), também comecei a carreira numa época que as linguagens estão em alto nível, e procuro aproveitar o máximo disso.

    E justamente por saber que muitas pessoas não tiveram essa sorte naqueles tempos, quando você e muitos veteranos estavam começando, é que eu fico louco quando vejo gente da minha idade hoje dando de ombros pra tanta coisa a troco de manter a cervejinha do fim da tarde, a baladinha do fim de semana, desdenhando de quem não se contenta com resultados medíocres como se fossem lunáticos…essa síndrome do mal-pago sem fim que só gera softwares ruins é triste.

    Mês que vem completo 3 anos de bagagem. Praticamente um menino ainda na área, mas sei que poderia ser muito melhor do que sou, que posso e devo melhorar, e muito. E fontes de inspiração e motivação não faltam, até fiz parte do seu 2015! 🙂

    Enfim, é isso aí. Continuo acompanhando aqui e ainda estou aguardando uma resposta positiva pra um Workshop de boas práticas e O.O./SOLID! 😛

    1. Opa, Renato. Obrigado!
      Realmente, hoje em dia está muito fácil aprender. Conteúdo de tudo que vc imaginar na internet, de graça. Inúmeros eventos, comunidades, livros, treinamentos…que maravilha! Só não aprende quem não quer!
      Quando eu comecei, material de estudo era muitoooo mais escasso, sem contar que internet “rápida” era só no trabalho. Em casa, era na base da internet discada, um sofrimento!
      Continue acompanhando que vem coisa boa por aí. O workshop tá no forno (sem previsão ainda).
      []s

  2. O que eu mais fiquei curioso pra saber era a sua opinião sobre o “futuro” e você me encerra falando que fica pra depois? Sacanagem, heim! 😛

    Massa o post, Tiozão. Parabéns!

  3. Prezado Robson! Fico honrado de conhecê-lo e admirar teu excelente trabalho.
    Se me permite aproveitar seu blog e também falar do passado… rss
    Eu também comecei a “escrever código” a muito tempo… lá por 1988 numa linguagem que nem sei se existe mais – mbasic que era um basic, mas ainda daqueles antigos computadores CP500… rsss
    Lá por 1994 comecei a estudar o ZIM, até então a “linguagem do futuro”. Quando começou a “era da internet” eu (não sei se vc também teve esse pensamento), mas não dei muito crédito, pois a internet era péssima (quando existia) e também porque inicialmente as páginas eram estáticas, feias, sem possibilidades de “fazer bonito”.
    Em 2000 fiz Especialização em Análise de Sistemas na UFMS, o que me abriu um leque de conhecimento e daí surgiu o Delphi e o Java… Me encaminhei para o Delphi, depois PHP. Porém, como vc (comecei tarde na web..rsss)… em 2011 tive a oportunidade de conhecer o Renan Marks (hoje professor na UFMS). Ele me deu muitas dicas e orientações – quase como um mentor… porém quando o mentor é muito bom, difícil a gente acompanhar com 100% de qualidade… mas de certa forma, o considero como meu primeiro mentor. Foi com ele que comecei a escrever meu “primeiro código em C#” e utilizando o MVC, até então bem desconhecido em minha vida profissional.
    E, em 2013 tive a oportunidade de trabalhar junto com os colegas da Dígitho (Magno, Renan, Fábio, Stéfano e etc – desculpe se esqueci de alguém, mas não lembro o nome de todos os colegas…rss). Conheci a prática Ágil e começamos a aplicar na Sanesul – um sucesso e que é utilizado até hoje. Utilizando essa prática, na minha empresa, conseguimos desenvolver alguns sistemas (pmsb.treslagoas.ms.gov.br, PMSB para a Prefeitura de Japorã, e PMSB para a Agereg: agereg.pensii.com.br – não publicado ainda).
    Então aproveito a oportunidade de agradecer aos que fizeram parte da minha história como Analista de Sistemas e dizer que “o futuro fica num próximo post”…rss
    Forte abraço Robson e meus sinceros parabéns pelo seu excelente trabalho, no qual admiramos muito.

    att,
    Paulo Mello

    PS.: desculpe o comment comprido…

      1. Confesso que, concordando com o Renan, fiquei curioso com sua opinião de futuro e o que podemos esperar… rsss… abraços e sucesso também para vc!

  4. Trabalhei um bom tempo contigo e nem imaginava que tinha trabalhado com Clarion… ainda bem que comecei pelo Delphi 7, dos males o menor ehehehehehe.
    Sucesso tio, abraços

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